31 maio 2006

Anáthema

E se não pertencêssemos a uma terra, a uma família, a nada. Se nada fôssemos e nada quiséssemos. Se assumíssemos o pó que somos e soubéssemos sê-lo em qualquer lugar. Se nos centrássemos nos átomos, nas ínfimas particulas que nos compõem e nos deixássemos assentar onde o vento e a atracção nos ordenasse. E se nos limitássemos a ser, strictu sensu. Sem passado, nem futuro, apenas agora. Se abdicássemos da racionalidade e do saber e vivêssemos apenas o que sentimos, os sentidos. E a vida, mais uma entre muitas formas de estar, não fosse mais do que uma sequência infinita de texturas, sabores, cheiros e ângulos subjectivos.

Se assim fosse tinha-te já esquecido. Não me lembro do teu cheiro, nem do toque da tua pele, nem do som da tua voz. Nem sequer dos traços exactos da tua cara ou a côr exacta dos teus olhos.

Gostar de ti é o anátema da minha condição humana.

1 Comments:

Blogger Rodolfo N said...

Uma beleza!
Beijhos

12:14 da manhã  

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